O Hip-hop surgiu na década de 70 no bairro do Bronx, em Nova York, como movimento social, cultural e político. Quando chega ao Brasil em 1980, populariza-se pelas periferias do país com as batalhas de rima e break, ganhando força com os sets dos DJs e com os grafiteiros que espelham o movimento e sua vivência nos muros de todo o país. O movimento nasce da necessidade de dar voz aos que moravam nas margens da sociedade, dar voz aos marginalizados e resgatar essa parte da cultura negra que se perdia em meio ao embranquecimento, fortalecendo a identidade negra e esse reencontro com as raízes que, além de artística, é também cultural e política.
Apesar de toda a influência positiva que o movimento recebe e reproduz, o machismo estrutural se torna uma barreira em sua movimentação. Há mulheres na base de todos os elementos do hip-hop que fazem parte dessa construção e que, por muitas vezes, tiveram seu protagonismo e trabalho subestimados ou invisibilizados. Existe uma luta por reconhecimento e a necessidade de quebrar a reprodução do machismo que permeia até mesmo a cultura Hip-Hop.
O movimento não é acolhedor com as mulheres, constantemente vemos mulheres que são mães sendo desrespeitadas em eventos/batalhas e vendo suas crianças serem maltratadas, ou quando mulheres negras precisam enfrentar a opressão cumulativa do racismo juntamente com o machismo que atravessa a luta das mulheres no movimento. Porque a luta é unicamente feita por mulheres e para mulheres, os homens só compram essa luta quando é conveniente e seguem reproduzindo falas e atitudes opressoras.
Retornando ao início do movimento e às motivações sociais de sua base, nos permite olhar sua escrevivência e o quanto é uma ferramenta potente de combate às opressões, assim como os ideais do Dia da Consciência Negra, que busca combater a falta de oportunidades e o apagamento da cultura afro-brasileira. A visibilidade e permanência dessas mulheres na cultura é importante para um empoderamento coletivo, servindo de inspiração e representatividade para as crianças e jovens negras. A cena feminina do rap nacional é um exemplo de consciência política e resistência em meio ao machismo crescente na cena nacional, mostram essa representatividade e sua relevância.
Há obstáculos que precisam ser superados para que mais mulheres possam se sentir confortáveis e reconhecidas dentro do movimento hip-hop, como a segregação de espaços que vemos com frequência nas batalhas de Mc’s, a objetificação de seus corpos na indústria cultural e a violência de gênero, onde nem a denúncia é o suficiente para fazer justiça. É necessário apoio contínuo para garantir a permanência de mulheres na cultura e sua visibilidade enquanto pessoa e artista, e que o movimento em sua totalidade possa ser equitativo e antirracista.
Dayo Oliveira é multiartista e cresceu no meio do hip-hop. Atua como produtora cultural, slammer, dançarina e diretora do Coletivo Mandume, grupo que trabalha com o ensino da Cultura Negra e do Hip-Hop. Além de organizar batalhas e eventos, também é coordenadora e professora do cursinho popular Confluências.