Uma pesquisa realizada por quinze pesquisadores trans e não binários no Cursinho Popular Demétrio Campos, na Grande São Paulo, demonstra que essa população ainda ocupa poucos espaços nas universidades brasileiras. Segundo a análise de participantes do estudo, essa ausência decorre de diversos fatores, que vão desde o tratamento recebido em ambientes educacionais até a exclusão social de forma geral. A falta de apoio familiar, a escassez de políticas de empregabilidade e a ausência de ações afirmativas intensificam o apagamento desses grupos no ensino superior. Além disso, conforme aponta o historiador e professor mestre Marcelo Spindola, a permanência é dificultada pela persistência da violência de gênero dentro das instituições:
“Seja na hora de prestar vestibular, fazer matrícula na instituição desejada, ou mesmo no dia-a-dia na sala de aula, nosses alunes são desrespeitades. Isso envolve não chamar pelo nome social, vazar seus dados, inviabilizar banheiros que contemplem seus corpos… para pessoas cis, essas são coisas triviais, mas muites trans e não binários preferem não estudar ao ter que passar por essas violências”.
Tentando entender este quadro de forma mais aprofundada, es pesquisadores do cursinho Popular Demétrio Campos entraram em contato com mais de setenta universidades federais e estaduais para colher dados a respeito da vivência trans e não binária nas graduações. Porém, de todas as universidades contatadas, apenas duas instituições responderam os formulários, dedicando-se a prestar esclarecimentos e trazer clareza sobre o assunto.
Para o pesquisador Marcelo Spindola, a falta de transparência das universidades brasileiras, reflete o desinteresse das instituições em acolher a comunidade trans e não binária.
“Mais de setenta universidades foram acionadas em todo o Brasil, à nível federal e estadual, mas apenas duas responderam. Nosses estudantes procuraram entrar em contato por todos os canais eletrônicos, encontrando secretarias de graduação e até mesmo reitores dessas instituições. As respostas eram simples e envolviam números de matriculados trans e não binários, processos de matrículas…ações cotidianas sobre burocracias acadêmicas que se dirigem a secretária, nada sigiloso. Ainda assim, apenas duas universidades responderam. A esmagadora maioria ignorou totalmente seu futuro alunado, nosses alunes do cursinho. A pergunta que não quer calar é: se tratam nosses alunes assim antes mesmo de entrarem na universidade, será que se importam com nossa vivência dentro de espaços acadêmicos?”.
Mas a ausência de transparência não ocorreu apenas das secretarias e reitorias de graduação. Dos mais de 316 mil professores da educação superior no Brasil (GOV, 2023), apenas dez professores universitários responderam a pesquisa sobre sua prática docente em relação à inclusão de pessoas trans e não binárias. Ademais:
“De dez professores entrevistados, pelo menos cinco alegaram não reconhecer a existência de pessoas trans e não binárias em suas turmas”, alega o historiador Marcelo Spindola. “Sendo assim, ou essas pessoas não estão na universidade ou se tornam invisíveis dentro da sala de aula. Mas algumas delas estão lá, pois as universidades declararam nos formulários que sim… porém, como? Tem amigos? Tem rede de apoio? São tratadas corretamente? Tem seus pronomes respeitados? Tem suporte acadêmico?”.
Para o professor Marcelo Spindola, essa questão torna-se ainda mais grave: “se essas pessoas ainda ocupam timidamente esses espaços, onde estão seus iguais, por onde andam? Como vivem?”.
Essas questões tornam-se ainda mais graves: “Por que estamos invisibilizando esses possíveis intelectuais e/ou os excluindo de processos educacionais?”. De acordo com essa perspectiva, o Brasil todo é impactado por essas negativas, uma vez que existem inúmeras vagas ociosas e remanescentes nas universidades brasileiras.
“O governo e a academia preferem cadeiras vazias ao invés de criar cotas? Preferem negar o direito à educação do que dar chance a futuros cientistas nacionais?”, pergunta-se o pesquisador Marcelo Spindola. “Por que, se alugamos que essas pessoas não estão lá, existe uma grande questão educacional, que percorre toda a educação básica e salta aos olhos na educação universitária”. Sendo assim: “como vai a educação para corpos trans no Brasil? Não sabemos. Não há clareza, falta pesquisa. Mas acima de tudo, faltam respostas e transparência, porque nós estamos aqui para pesquisar!”.
Os dados levantados pela pesquisa realizada por es alunes do Cursinho Popular Demétrio Campos revelam que a ausência de corpos trans e não binários nas universidades brasileiras é perpetuada por um ciclo de silenciamento e falta de transparência institucional. O estudo evidencia que o “vazio” ocupado por essa população nos bancos acadêmicos não é fruto do acaso, mas de uma estrutura que, na prática, prefere manter cadeiras ociosas a acolher a diversidade de saberes.
Entre as violências do desrespeito ao nome social e o descaso das secretarias e reitorias em fornecer informações básicas, o que se observa é a negação sistemática desses sujeitos como produtores de conhecimento. Ao negligenciar o acolhimento básico e ignorar a existência dessa comunidade, a academia não apenas tolera violências cotidianas, mas desperdiça o potencial de futuras mentes científicas nacionais.
Encerrar essa invisibilidade exige mais do que tolerância; demanda políticas afirmativas concretas. Diante desse cenário de exclusão, a implementação de cotas específicas deixa de ser uma pauta isolada para tornar-se uma reparação histórica urgente, essencial para romper as barreiras do preconceito e garantir que o direito à educação pública seja, finalmente, um direito de todes.
