A cartilha apresenta uma pesquisa sobre o acesso da população trans e não binária ao ensino superior brasileiro, realizada pela Associação 19 de Setembro, Rede Confluências, Cursinho Popular Demétrio Campos e parceiros. O estudo teve a participação direta de 15 jovens pesquisadores trans e não bináries, que receberam bolsas para conduzir a investigação. A metodologia da escrevivência, inspirada em Conceição Evaristo e ampliada para as “escrevivências trans”, parte das experiências das próprias pessoas pesquisadoras para transformar vivências em produção de conhecimento e instrumento de análise social.

Os dados revelam um cenário de invisibilidade institucional e exclusão multifacetada. Entre as principais barreiras estão a LGBTQIAPN+fobia, apontada por 51% das pessoas participantes, as barreiras financeiras (40%), a falta de políticas de permanência (28,8%), o capacitismo (14,93%) e o racismo (8%). A pesquisa também evidencia problemas como o uso do “nome morto” em sistemas acadêmicos, ausência de banheiros seguros e inclusivos, canais de denúncia pouco eficazes, falta de representatividade trans e não binária na gestão universitária e dificuldades de acolhimento por parte do corpo docente.

Diante desse diagnóstico, a cartilha defende que garantir apenas o acesso à universidade não é suficiente: é necessário assegurar permanência, segurança e pertencimento. A comunidade pesquisada aponta cinco prioridades: cotas, bolsas e auxílios; campanhas permanentes contra a transfobia; garantia do uso do nome social; apoio psicológico; e ações de empregabilidade. Além disso, são propostas medidas estruturais, como formação de docentes e funcionários, adequação dos sistemas institucionais, infraestrutura segura, canais de denúncia com poder de atuação, políticas de permanência e contratação de pessoas trans e não binárias. Para 97% das pessoas entrevistadas, a criação de cotas ou políticas específicas é importante, reforçando a compreensão de que ações afirmativas são necessárias para enfrentar desigualdades históricas e garantir o direito à educação.